Este ano ganhou um significado especial para a agenda do voluntariado: a Organização das Nações Unidas declarou o ano como o Ano Internacional dos Voluntários para o Desenvolvimento Sustentável, ampliando a visibilidade do papel dos voluntários na construção de soluções para desafios sociais e ambientais.
A escala desse movimento é enorme. Segundo a ONU, cerca de 2,1 bilhões de pessoas em idade ativa realizam algum tipo de trabalho voluntário todos os meses no mundo. No ambiente corporativo, essa mobilização também ganhou força. No Brasil, o Censo Brasileiro de Voluntariado Empresarial 2025 registrou 34 mil ações de voluntariado em 2024, 131 mil voluntários e 7,3 milhões de pessoas alcançadas, com índice de engajamento de 23%.
Os números são expressivos, mas revelam um novo desafio. À medida que o voluntariado corporativo cresce, a pergunta deixa de ser apenas quantas pessoas participam ou quantas horas são doadas. É preciso entender o que essas experiências produzem para quem participa, para quem recebe e para os territórios onde acontecem.
O próprio setor empresarial já caminha nessa direção. O Censo mostra que 95,12% das empresas utilizam indicadores quantitativos para acompanhar seus programas e 60,98% também adotam indicadores qualitativos. O investimento médio anual por empresa cresceu 22%, passando de R$ 275 mil em 2022 para R$ 336 mil em 2024.
Ou seja, o voluntariado corporativo está ganhando escala, recursos e mecanismos de acompanhamento. O próximo passo é transformar essa estrutura em impacto cada vez mais consistente.
É justamente essa perspectiva que orienta iniciativas como o Desafio 60, do Instituto Aromeiazero. A proposta é simples: em 60 minutos, colaboradores de empresas trabalham em equipe para montar bicicletas que serão destinadas a crianças e jovens. O cronômetro é de uma hora. O impacto, porém, pode ser muito maior.
Durante a atividade, os participantes dividem tarefas, se comunicam, solucionam problemas e colaboram para montar uma bicicleta que será destinada a outra pessoa, vivenciando de forma concreta o impacto do próprio trabalho e se aproximando de uma causa que pode estar distante de sua rotina.
A comunicação também tem um papel importante nessa agenda: dar visibilidade às iniciativas, inspirar novas pessoas e empresas e mostrar os resultados que podem ser alcançados por meio do voluntariado corporativo. O desafio é fazer com que essa comunicação esteja acompanhada de uma visão mais ampla sobre o impacto gerado, olhando não apenas para a ação em si, mas também para seus desdobramentos.
Um dos desafios, porém, está em acompanhar o que acontece depois da ação. No caso das bicicletas doadas, por exemplo, medir os resultados para além da entrega exige tempo e recursos para acompanhar os beneficiários e entender como essas bicicletas passam a fazer parte de suas rotinas. Saber quantas bicicletas foram montadas e entregues é importante, mas acompanhar o que acontece depois permite enxergar uma dimensão ainda maior do impacto gerado.
Por isso, talvez seja hora de mudar a pergunta. Em vez de “quantas pessoas participaram?”, começar a perguntar: “o que mudou porque elas participaram?”
Essa mudança também exige relações mais consistentes entre empresas e organizações sociais. As empresas têm capacidade de mobilização, recursos e pessoas. As organizações sociais conhecem os territórios, suas necessidades e os caminhos para construir soluções. O voluntariado corporativo pode ser o ponto de encontro entre essas capacidades.
No caso da bicicleta, essa conexão é ainda mais evidente. Quando as bikes são doadas para escolas e organizações sociais, elas podem ser compartilhadas por dezenas ou até centenas de crianças ao longo de meses ou anos. Uma pequena frota de bicicletas, portanto, pode ampliar significativamente o alcance da ação e fazer com que o impacto ultrapasse — e muito — o momento da doação.
Em 2026, enquanto o mundo dedica um ano a reconhecer o voluntariado como instrumento de desenvolvimento sustentável, temos uma oportunidade de amadurecer essa agenda. As empresas já demonstraram disposição para participar. Os números mostram que existe escala, investimento e preocupação crescente com mensuração.
Agora, o desafio é fazer com que cada experiência de voluntariado corporativo tenha mais significado e gere impacto que vá além do momento da ação.
Porque o verdadeiro valor de uma hora de voluntariado não está na hora em si. Está naquilo que ela consegue colocar em movimento. Que tal fazermos a diferença?
Autora: Camila Dias, comunicadora e colaboradora do Instituto Aromeiazero.



